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A FORMAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DA CULTURA LOCAL
Formando a grande maioria da população da região, os imigrantes açorianos e seus descendentes se constituíram numa poderosa força cultural, assentadora de usos e costumes e cultivadora de tradições, que marcaria profundamente a identidade do povo da Ilha de Santa Catarina e vizinhanças.
Dos filhos do Arquipélago herdamos um dos traços mais característicos da nossa personalidade popular, ou seja uma religiosidade muito forte. Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antonio, Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, São Francisco de Paula de Canasvieiras, São João Batista do Ria Vermelho, São Miguel do Rio Tavares, Cachoeira de Bom Jesus, Vargem do Bom Jesus, Armação de Sant’Ana, apenas para exemplificar, são expressão desta religiosidade, na denominação das nossas povoações. Mas, fundamentalmente, ela se manifesta nas festividades do Divino e de outros santos, compondo expressivos complexos culturais, nos ternos, nas procissões, na própria linguagem.
Os rituais de expiação do boi ( a farra-do-boi e o boi-na-vara), assim como uma mitologia onde despontam bruxas e lobisomens, explicado pelo fato de nossos ancestrais açorianos ainda viverem na Idade Média, quando o centro europeu já se preparava para a Revolução Industrial, são também expressões desta religiosidade.
Mas o legado açoriano não se limita à dimensão religiosa. Dele fazem parte uma rica literatura popular manifesta na forma oral (provérbios, cantigas, expressões figuradas, etc.), ou na forma escrita (os pão-por-Deus), quadrinhas amorosas escritas em papel recortado e decorado, sob a forma de coração ou outras; manifestações coreográficas ( os fandangos, a ratoeira); técnicas de produção ( o alambique, o engenho, o carro-de-boi, a baleeira, etc.); uma medicina de base homeopática que incorpora benzeduras e orações ; um diversificado artesanato, dominado pelos trançados (redes de pesca, rendas, etc.), entre inumeráveis outros traços, havendo que se destacar ainda o linguajar local, caracterizado pelo “som cantado” e pela alta velocidade de flexão vocal.
O breve inventário feito acima é o bastante para considerar a enorme importância que tiveram os açoritas na montagem de nossa cultura popular. Entretanto, é preciso afastar certa compreensão, absurda porém hegemônica, que assimila a cultura local à tradição açoriana em termos quase absolutos.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que os imigrantes açorianos tiveram de se adaptar a um novo e estranho, porque desconhecido, quadro natural. Culturas típicas dos Açores, como a do trigo, por exemplo, não puderam se desenvolver no litoral catarinense, face às condições do clima e do solo. Apenas para lembrar dois momentos decisivos do seu processo de adaptação, os açorianos absorveram a cultura da mandioca, desconhecida nas ilhas, e construíram aqui o engenho de farinha, fundindo elementos do moinho de vento e da atafona.
Em segundo lugar, não é possível desconsiderar o papel de outras vertentes formadoras da cultura local. Os Carijó, que dominaram o nosso litoral por pelo menos três séculos, até o XVII, acabaram exterminados mas permaneceram, contudo, nos complexos da mandioca e do milho, nos topônimos Tupi-Guarani e em boa parte do vocabulário regional, nas canoas de garapuvu e em trançados de fibras vegetais, bem como em significativas parcelas da nossa homeopatia, do nosso imaginário, da nossa culinária.
Os vicentistas,fundadores da povoa do Desterro, que desempenham o papel de ponte entre a cultura carijoara e açoriana, também deram sua contribuição. Foram eles que estabeleceram a administração pública e a burocrática, implantaram o serviço militar, instalaram a igreja católica, instituíram a moeda e os títulos de posse e propriedade, todos os elementos que impõem uma dinâmica própria ao modo de vida do povo.
A interação destas três vertentes – a Carijó, a vicentista e a açoriana -, acrescida de numerosas outras influências, entre as quais deve-se destacar a contribuição dos escravos negros (formas de magia, crenças, cultos e rituais religiosos, etc.), acabou por gestar aqui uma nova cultura, plena de matizes e formas, inencontrável em qualquer outro lugar. Uma cultura que, hoje, vive seu perigeu, num processo de progressivo desaparecimento ante o curso inexorável da História.