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Surf milenar

O elo perdido

Por Eduardo Rosa em 14/08/2008 00:01

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Imagem do balseiro, inscrição com cerca de 10 mil anos, impressiona pela semelhança com o surf. Foto: César Silva.

Para nós, surfistas tudo bem saber de tudo isso! É até interessante! Mas, o mais impressionante foi o que César Dal Molin Silva, mais conhecido como Cachorrão da Praia Mole, evidenciou em duas expedições realizadas pela costa do Pacífico sul-americano, intituladas Volta às Origens I e II.

Se há alguns anos, alguém nos perguntasse se o Capitão James Cook, exímio desbravador dos mares no século XVII, houvesse registrado “os primeiros indícios” de algum ser humano deslizando sobre as espumas das ondas em alguma ilha perdida no oceano, com um pequeno barco, que para nós, hoje, mais pareceria com uma prancha, eu até acreditaria. E isto tudo está registrado lá no diário de bordo de Capitão Cook. Hoje, não mais...


Em pouco mais 40 anos, alguns pesquisadores têm feito tantas descobertas em solo latino-americano, principalmente no Chile e no Peru, que já se está cogitando em mudar a história mundial. Entre elas, estão achados que podem ser direcionados ao surf e mudam seu princípio histórico também.

Muita gente que pega onda já ouviu falar que o surf pode ter suas raízes no continente sul-americano. Mas nunca ninguém parou para uma análise profunda e criteriosa.

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Últimas descobertas de pesquisadores em solo latino-americano podem mudar história do surf. Foto: Reprodução.


Algumas surf trips, realizadas por surfistas e fotógrafos, trazem na volta indícios, como fotografias e histórias de muito tempo atrás, quando outras civilizações habitavam essas bandas. 

Fotos de balsas de junco de Totora, que divertem turistas em várias praias do Peru, os quais nem imaginam tamanha história que elas carregam consigo.

A grande maioria dessas balsas ainda é fabricada por nativos que trazem técnicas milenares na fabricação destes artefatos e não abdicam dessa raridade, passando para as gerações seguintes essa prática.

Sabem que detêm um vasto arquivo histórico nas mãos, e poucos que não descendem dessa pequena - e ainda existente - civilização Aimara, tiveram o privilégio de conhecer estas técnicas.

Thor Heyerdahl – O início da cruzada - "Assim, não somente minhas suspeitas, mas também minha atenção, se afastaram cada vez mais do Velho Mundo, onde tantos haviam procurado e nenhum havia encontrado nada, e se voltaram para as civilizações indígenas da América, tanto as conhecidas como as desconhecidas, as quais ninguém até então tinha levado em conta”.

Duas dessas privilegiadas pessoas realizaram grandes comprovações históricas e científicas, através de indícios milenares, que estão sendo aos poucos desvendados. Começando pelo período da Segunda Guerra Mundial, quando Thor Heyerdahl, um explorador norueguês estudioso da história viking pelos mares nórdicos, atraído por indícios que a civilização Aimara - nativos da região do lago Titicaca, ao sul do Peru - poderiam ter sido os primeiros desbravadores dos mares, veio até ao continente sul-americano para entender que o burburinho num pequeno meio cientifico e histórico, poderia ser realmente verdade.

Embarcou numa das mais ousadas e intrépidas aventuras jamais realizadas até então. Construiu, junto com nativos peruanos, uma espécie de balsa de junco de Totora e madeira, a qual foi batizada de Kon Tiki. Queria, então, provar que as antigas civilizações peruanas tinham tecnologia suficiente para atravessar o Oceano Pacífico e chegar até as Ilhas Marquesas, na Polinésia.


Durante 101 dias, fez aportes em desabitadas ilhas do Pacífico Sul, provando, assim, a teoria de milenares navegadores sul-americanos. Promoveu ainda mais três expedições, intituladas, Ra, Ra II e Tigres, utilizando os ventos e as correntes marítimas que insurgiam do sul da América do Sul até o litoral equatoriano e se lançavam em direção a Ásia, conhecida como correntes de Humboldt.

 

Foi mais além, e em tais empreitadas descobriu e evidenciou semelhanças entre a cultura polinésia e a peruana. A maior delas seria a extensa utilização de balsas muito parecidas com as que eram produzidas em solo sul americano e tinham como o diferencial o tipo de junco utilizado. As esculturas e monumentos de pedras também tinham grande semelhança com as obras encontradas no Chile e no Peru.

 

Kitin Muñoz, a descoberta continua - “Os sul-americanos são os mais antigos navegadores da história”. Algumas décadas mais tarde era a vez de Kitin Muñoz - explorador científico, sociólogo espanhol e embaixador de Boa Vontade da UNESCO desde 1997 -, que assim como Heyerdahl, lançou-se pelo Pacífico, com o apoio da UNESCO, para também comprovar que a civilização polinésia, e até a australiana e a japonesa, entre outras, teriam suas origens e muitas influências nos aborígines sul-americanos.

 

Em 88, Kitin deixou o porto de Callao, em Lima, Peru, a bordo do El Uru, uma balsa com 18 metros de comprimento, 4 metros de largura e pesando mais de 10 toneladas. Dispunha de dois timões – que mais pareciam com remos –, um mastro com 16 metros, tripulação composta de cinco marujos, levando 1,5 mil litros de água e 250 quilos de provisões mais um rádio para eventuais emergências.

Surf milenar

O elo perdido

Por Eduardo Rosa em 14/08/2008 00:01

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Capitão James Cook é considerado o desbravador dos mares no século XVII. Foto: Reprodução.

“Cinco séculos depois de Colombo, o espírito de aventura marítimo está vivo na Espanha. E assim se apresentou Kitin Muñoz graças ao êxito da expedição da El Uru”, elogiou Heyerdahl.


Costearam as Ilhas Galápagos e alcançaram as Ilhas Marquesas, chegando até o Tahiti, onde a lenda das viagens milenares está enraizada em sua cultura e vive nas tradições da ilha até os dias de hoje. Com 54 dias de viagem, a missão El Uru foi concluída com extremo sucesso e de maneira feliz.


Mata Rangi I, a nave - Depois ele partiu para a Ilha de Páscoa, em 96, para construir o que chamou de nave. E foi essa referência que ele utilizou para comparar o que os habitantes sul-americanos da época tentavam realizar, assim como hoje, que exploram o universo para tentar chegar a outros planetas.

 

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Imagem do Mata Rangi II, barco construído por Kitin Muñoz com a ajuda dos índios Aymaras. Foto: Reprodução.

Com o nome de Mata Rangi I – que no dialeto pascuense significa “olhos que tudo vê” ou “olhos do paraíso” –, o projeto de construção de um barco de época e a expedição foram batizados.

 

Na praia de Anakena, em Páscoa, onde o rei Hotu Matua desembarcou de uma das balsas com três mastros, como foi esculpido no peito da estátua de Rano Raraku, divindade polinésia, Kitin pretendia continuar a investigação começada pelas balsas Kon-Tiki e El Uru e percorrer toda a Polinésia no intuito de provar a teoria da influência sul-americana nas Ilhas Polinésias. Seu feito, desta vez, não alcançou o êxito esperado e naufragou junto com o barco.

 

Em 98, com o fracasso do Mata Rangi I, Muñoz não se deu por vencido e voltou para o Lago Titicaca, no Peru, e com a ajuda dos descendentes dos índios Aymaras e do junco do lago – pois a falha da primeira tentativa foi usar o junco da Ilha de Páscoa –, iriam construir uma nave de 30 metros de comprimento e 7 de largura, na praia de Chinchorro, Arica, Chile, de onde partiria a missão.


Sua pretensão era chegar até as ilhas da Polinésia e, com um pouco de sorte, ao Hawaii, utilizando os ventos e as correntes marítimas que insurgiam do Sul da América do Sul até o litoral equatoriano e se lançavam em direção a Ásia, conhecida como correntes de Humboldt.

 

Depois de 59 dias lutando contra os elementos da natureza, a equipe chegou às Ilhas Marquesas, no Tahiti. Vale ressaltar que Kitin teve o cuidado de construir essa balsa com materiais e técnicas indígenas das mais tradicionais. Junto com uma família de construtores de balsas de totora, descendentes dos índios Aymaras, colheram a madeira e buscaram plantas na Floresta Amazônica da Bolívia e do Brasil, para fazer as coradas das amarras. Todos que participavam da empreitada tiveram a certeza de que iriam completar a viagem.

 

Porém, não teve o cuidado de fazer uma resina especial, que demandava tempo, além do que Kitin dispunha, ocasionando o elemento surpresa da viagem: um fungo, que poderia ter se instalado nas cordas das amarras, corroendo-as até se romperem uma a uma.


Uma lenda conta que expedições indígenas inter-oceânicas chegavam e partiam muitos séculos antes de Colombo. E desde que o homem conheceu o mar, teve vontade de saber o que havia do outro lado, não importando se o preço pudesse ser a vida.

 

Para nós, surfistas tudo bem saber de tudo isso! É até interessante! Mas, o mais impressionante foi o que César Dal Molin Silva, mais conhecido como Cachorrão da Praia Mole, evidenciou em duas expedições realizadas pela costa do Pacífico sul-americano, intituladas Volta às Origens I e II.


São registros de inscrições rupestres, no meio do Deserto do Atacama, um dos lugares mais inóspitos do mundo, que não recebe chuvas em quantidade suficiente há milhares de anos. Além dos vários tipos de desenhos montados com pedras, um em especial chamou a atenção de Cesar. Era a figura de um “balseiro”, que assim mesmo era chamada, e que mais tarde, ao pesquisar em enciclopédias chilenas e peruanas, descobriu que elas estão lá há mais de 6 mil anos. Algumas chegam a ter mais de 8 mil anos.

 

As balsas de junco de totora são tradicionalmente utilizadas até os dias de hoje, para atravessar a arrebentação, para pescar, passear e, em alguns casos, se divertir, como as balsas alugadas para turista em vários pontos da costa peruana.

 

As múmias de Chinchorro - Em outras recentes descobertas feitas por pesquisadores, há o de múmias, que estavam em tumbas próximas à cidade de Arica, no Chile, chamadas de Múmias de Chinchorro. Os corpos e os artefatos que ali estão enterrados datam de quase 9000 anos, ou seja 7000 anos antes de Cristo, e que o povo vivia do mar. Mas a escavação revelou ainda algo muito mais surpreendente. Os 96 corpos enterrados

em camadas eram as múmias mais antigas e conservadas do mundo. 

 

Não seria inverdade se disséssemos que o surf é o esporte mais antigo do mundo, mesmo que naquela época não o praticassem, exclusivamente, como lazer ou esporte, ou restritamente como trabalho e pesca profissional, já que, em pequenas embarcações de totora se descarregava as embarcações maiores, que ficavam ancoradas depois da linha de arrebentação e para isso aproveitavam com habilidade a força das ondas para mais rapidamente chegarem à terra. 

 

A grande rodovia sul-americana ligava o Pacífico ao Atlântico - Tudo isso ainda gera dúvidas para nós, amantes desse esporte. Pouco ainda se sabe, mas o que desperta mais interesse ainda é o fato desses nativos peruanos poderem ter chegado até o litoral brasileiro. Indícios fortes indicam essa migração ocorrida há muitos anos.


Já é fato que as inscrições rupestres, as ferramentas e o modo de vida dos habitantes do litoral sul-brasileiro se assemelham em muitos casos com os antigos nativos peruanos. Para corroborar com este fato, podemos aqui citar o Caminho de Peaberu, que foi uma rodovia utilizada por indígenas sul-americanos há muitos anos.
Este caminho pode ser feito desde a Bolívia ou Chile até o Sul do Brasil. Outra confirmação ainda mais recente é que os índios Guaranis – paraguaios e brasileiros -, e os Tucumãs – argentinos - são oriundos dos Aimaras e de outras tribos peruanas.

Fontes Bigdog.com.br, Portal Unesco, Great Dreams, Geocities e Wikipedia.